Crítica | A Falecida Vapt Vupt por Astier Basílio
Nelson Rodrigues apresenta montagem de “O Falecido” de Antunes Filho
Folha de São Paulo, 15/07/2009 – 08h50
Antunes Filho apresenta montagem de “A Falecida”, de Nelson Rodrigues
LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo
Prestes a completar 80 anos, o diretor Antunes Filho está farto daquilo que sabe sobre teatro. Para espantar o tédio, acelerou o tempo. Agora é DJ.
Sério Lucas? Será que a gente viu a mesma peça? Ou, tipo, você teve que fazer essa pauta antes de ver o espetáculo – acontece, inclusive comigo, mas declarações assim são, como dizer, meio perigosas. Mas, é meio pesado dizer que o cara é DJ – tu não acha, não? Eu entendo de metáforas, sei o que você quis dizer, mas isso induz o consumidor a comprar um produto, no caso o ingresso, errado.
Em “A Falecida Vapt-Vupt”, que faz três apresentações no Festival Internacional de São José do Rio Preto (SP) antes de iniciar temporada em São Paulo, ele sobrepõe camadas, tempos, espaços, como um disc-jóquei saído da pista para o palco.
Patricia Stavis/Folha Imagem
Em nova montagem, diretor Antunes Filho rompe com o formalismo
A intriga da peça de Nelson Rodrigues é simples: a dona de casa do subúrbio carioca Zulmira quer se despedir de uma vida de dissabores num enterro grã-fino, com crucifixo de cristal, caixão com alças de bronze, cavalos com penachos e tudo mais que houver. De tanto criar expectativa pelo próprio funeral, adoece de fato.
Camadas, tempos, espaços… Vou ter que trabalhar com duas hipóteses. A hipótese um: tu fez o texto sem ter visto e acreditou no que o bom velhinho disse. A hipótese dois: tu precisa ir pra uma pista de dança com disc-jóquei de verdade, brother. Seria engraçado ver você dançando numa pista, Lucas. Por que vê só, na real o que Antunes fez foi o seguinte: colocou seis mesas servindo de cenário passivo pra linha de encenação central. Em cada mesa os atores faziam microações – uma mulher treinava pra ser modelo vivo; uns voinhos jogavam cartas; um casal descoladinho jogava dominó; um sujeito com cara de poeta ou de suicida escrevia o tempo todo. Não se estabeleceu nenhuma conexão entre as cenas, nem sobreposição. Nadica, pelo menos pra mim, tá?
Luca, você falou aí que “a intriga da peça é simples”. Ok, acho que até dá pra dizer que a encenação também é. Um amigo meu, será que vocês se viram?, o Pu, usou uma expressão muito engraçada: a uniformização da voz de pato – logo o Pu que sempre pagou mó pau pro Antunes; sempre adorou a forma como os atores usam as mãos; o trato bem feitinho no palco. Tudo muito simples, tudo muito Antunes, pelo menos eu não vi nenhuma “ruptura com o formalismo” como sugere a legenda na foto. Aliás, na Folha é você quem faz a legenda? Sei que tem jornal que varia, que é o editor quem faz a legenda. Bom, se não foi você quem legendou teu texto, induziu o editor a escrever isso, da ruptura com o formalismo -mas, onde houve essa ruptura? Em que momento?
Antunes e seu grupo Macunaíma retomam a história em alta voltagem. As cenas na casa da protagonista, no consultório médico a que ela vai e na funerária em que arquiteta o seu “grand-finale” se sucedem em ritmo vertiginoso. Não raro, há simultaneidade de ações: o fim de um diálogo acontece em paralelo ao começo de outro, em tempo-lugar distinto.
Explica como deu essa tal simultaneidade de ações. Por que vê só: o negócio era tão respeitoso à linha formal, linear, do texto de Nelson, que os demais personagens das mesas, eram meros figurantes, meros enfeites – até a conversa deles era num tom baixo com o objetivo de não ’sujar’ a fala da linha de ação mestra. Não houve ’sujeira’, nem ’simultaneidade’, houve uma encenação reverente, marcada, com um andamento de uma ação só – certo que explorando os vários espaços do palco, sobretudo entre as mesas – mesmo que ignorando quem estava sentado nelas.
A isso, o diretor acrescenta o ruído incessante de um bar, único cenário concreto da montagem (os outros são sugeridos), delimitado ao fundo por uma parede branca coberta de “pichações de banheiro”, como ele descreve.
Que nem aqueles cantores de shopping cantando Djavan e atrapalhando o papo de quem tá lá pra tomar um chopp e conversar com os amigos, né?
A inspiração são os retratos “secos, enxutos” do precursor da pop art, Andy Warhol (1928-1987). “Quero uma imagem dura, seca, árida, não mais aquela clássica, cheia de sombras, de aura. O barulho de fundo é para aturdir, tontear, manter uma atmosfera sufocante, mostrar como estamos zonzos”, diz.
Querer, o senhor pode até ter querido, Antunes, mas não foi isso o que se viu em cena não. Na boa, o que tinha no palco era justamente o oposto do que o senhor quis; era a exacerbação do seu método; era o parnasianismo formal; era um ator como o Lee Thalor que se trancafiou dentro do seu método. E outra: o barulho de fundo, com um volume deliberadamente monocórdio, repetitivo, e, principalmente, abaixo do tom de voz dos personagens pode ser qualificado com vários outros adjetivos – aqui a gente não pode usar muito adjetivo na Bacante, mas se pudesse eu usaria um: ‘maçante’ – menos os que o senhor listou.
15 minutos de fama
Antunes também recorre a Warhol para explicar a obsessão de Zulmira. “Quanto mais você é pisado, mais você sonha. Ela quer um momento de glória, os seus 15 minutos de fama. A esperança, a porra da esperança é tudo no homem, mesmo que seja para a morte.”
Sim? Que tem a ver o Warhol com isso? É só pra citar? Só pra dar um tom meio moderninho ao troço? Onde tinha Warhol na personagem? Bom, se o Warhol tiver lá em ação interna fica duro de descobrir.
Mais até do que a pop art, Antunes bebe aqui na fonte da videoarte e da radicalização da ideia de tempo e espaço comprimidos, condensados.
“De repente, percebi que tinha de pegar alguma coisa desse bombardeamento eletrônico que estava lá fora. Senão, estaria no tempo da vovó. Tenho de oferecer algo que leve o espectador a outra dimensão do teatro. Não dá mais para ser naturalista nem realista. Tem de fugir do cânone”, avalia.
Onde é que está o bombardeamento eletrônico em sua peça, Antunes? Em que momento? Só quero que o senhor cite um momentozinho. Porque a peça que eu vi, me desculpe aproveitar a sua piada, era a do tempo da vovó. Não entro nem no mérito do teu teatro, do teu método, nada disso. A questão é outra. A questão é que o senhor não ofereceu outra dimensão do teatro. A questão é que o senhor não fugiu do cânone. Foi propaganda enganosa geral.
Para quem ficou conhecido por encenações de marcação rigorosa e formalismo agudo, a afirmação soa como uma alforria. “Estou cada vez mais aberto, em busca do imprevisível. Aquilo que sei em termos de teatro é muito miserável.”
Não sei se aquilo que o senhor sabe em termos de teatro possa ser classificado como ‘miserável’ – nossa, Antunes, acho o senhor daria prum bom crítico… um criticozão de teatro, quanto adjetivo! – mas o que eu sei é que em Falecida Vapt Vupt não tinha nada de imprevisível – eu juro ao senhor que em vários momentos esperei a explosão; esperei as cenas se sobreporem umas às outras; aguardei o eletrônico estourar; desejei os personagens figurantes interferirem na cena; estava tudo lá, à beira do imprevisível, mas o que se viu foram os ‘mesmos tristes périplos‘, o mesmo ‘teatro miserável’.
Mas devagar com o andor. O fascínio de Antunes pela videoarte não deve se traduzir tão cedo no uso de projeções ou pirotecnias multimídia em cena. “Não é assim! Faça teatro com as armas dele. É muito mais ousado e essencial. O negócio é tomar emprestados os impulsos, os neurônios das outras artes que estão no ar.”
Ok, senhor ousado e essencial. Ah tá tudo explicado! A ruptura foi interna? Então, sua ousadia e essência são internas. Então, é melhor filmar uma endoscopia e exibir em cena, né? O aproveitamento da vídeoarte, interno. O lance foi ação interna, arquitetura em movimento e coisas que estão dentro dos atores. Será que o pessoal do PROCON manja disso?
Como ele fez em “Foi Carmen” (2005/08), seu espetáculo anterior, um “poema teatral” construído a partir do imaginário associado a Carmen Miranda –e que também resultava numa ode ao dançarino japonês Kazuo Ohno.
“A Falecida Vapt-Vupt” é o antípoda de “Foi Carmen”. Ali, tratava-se de um tempo oriental, estático, cheio de vãos de silêncio. Agora, é um tempo avassalador, do consumismo, da sociedade do espetáculo. Este é yang, aquele era yin.”
Oi?
DJ Antunes sabe o que quer com suas picapes.
Ok, Antunes. Só pra terminar nosso papo. O senhor, tá ligado no Código de Defesa do Consumidor? No Capítulo V “Das Práticas Comerciais”, na seção III “Da publicidade” o artigo 37 é bem claro e diz: “É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva”.
Vê só o que diz o inciso primeiro:
“É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços”.
6 mesas de figurantes enfeitando a cena
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Escrito por Sated Maranhão às 17h47